A escola é um lugar cheio de estímulos: sons, luzes, cheiros, texturas, regras e mudanças constantes de rotina. Para a maioria das crianças, tudo isto faz parte do dia a dia. Mas para as que têm dificuldades de processamento sensorial, o ambiente escolar pode ser um verdadeiro desafio.

Estas dificuldades podem afetar a atenção, o comportamento, a aprendizagem e até as relações sociais. A boa notícia é que, com compreensão e pequenas adaptações, é possível tornar a escola um espaço mais acolhedor e favorável ao desenvolvimento de cada criança.

O que são dificuldades sensoriais?

As dificuldades sensoriais (ou diferenças no processamento sensorial) ocorrem quando o cérebro tem dificuldade em receber, organizar e responder à informação que chega pelos sentidos: visão, audição, tato, olfato, paladar, equilíbrio (sistema vestibular) e perceção corporal (proprioceção). Quando isto acontece, a criança pode reagir de forma muito intensa a certos estímulos (hiper-reatividade), precisar de estímulos mais fortes para reagir (pobre registo sensorial), ou oscilar entre procurar e evitar estímulos.

Isto não é birra, má educação ou desinteresse — são respostas naturais do corpo. Mas é importante perceber que as dificuldades sensoriais não se limitam ao que a criança vê, ouve ou toca. Elas influenciam também como o corpo se organiza, como a criança mantém a postura, como percebe o próprio corpo e como planeia movimentos. Aqui entram três áreas que muitas vezes passam despercebidas, mas que fazem parte do processamento sensorial:

✔ Controlo postural
O controlo da postura depende de informação sensorial vinda dos sistemas vestibular e propriocetivo. Se o cérebro recebe estas mensagens de forma confusa, a criança pode escorregar pela cadeira, cansar-se rapidamente, mudar constantemente de posição quando sentada, ter dificuldade em manter a postura enquanto escreve ou parecer “mole” e sempre à procura de apoio.

✔ Consciência corporal
Este sentido diz-nos onde estão as partes do corpo e quanta força usamos, dependendo do processamento tátil e propriocetivo. Quando há dificuldades, a criança pode tropeçar com frequência, esbarrar nos colegas, ter dificuldade em medir força (como pressionar demasiado o lápis) ou procurar estímulos fortes como saltar ou bater com os pés.

✔ Práxis (planeamento motor)
A práxis é a capacidade de planear, organizar e executar movimentos. Crianças com dificuldades sensoriais podem ter problemas para iniciar tarefas, seguir vários passos, adaptar movimentos a novas situações, variar brincadeiras ou coordenar gestos nas aulas de educação física, artes ou jogos.

Desafios mais comuns na escola

crianças na escola

1. Sobrecarga sensorial
Barulho, luzes fortes, campainhas e confusão podem levar a criança a tapar os ouvidos, esconder-se ou reagir intensamente.

2. Dificuldades de concentração
O excesso de estímulos ou a falta de movimento pode dificultar a atenção. A criança parece distraída ou inquieta.

3. Problemas com o toque e materiais
Certas texturas podem ser desagradáveis, enquanto outras crianças precisam de explorar tudo com as mãos.

4. Dificuldades motoras e de escrita
Pode haver dificuldade em regular força, segurar o lápis ou coordenar movimentos.

5. Reações emocionais intensas
Mudanças de rotina, imprevistos ou ruídos podem gerar irritação, choro ou recusa em participar.

Como pais e professores podem ajudar

1. Trabalhar em equipa com o terapeuta ocupacional
Um terapeuta ocupacional especializado em integração sensorial orienta estratégias específicas. A colaboração entre escola e família é essencial.

2. Fazer pequenas adaptações no ambiente
Escolher um lugar mais calmo na sala, permitir auscultadores protetores, reduzir luzes fortes, usar alternativas às cadeiras tradicionais e criar um cantinho tranquilo.

3. Introduzir “pausas sensoriais”
Momentos de movimento ajudam a regular o corpo e melhorar a concentração.

4. Preparar e avisar antes das transições
Avisos antecipados e cronómetros visuais reduzem a ansiedade.

5. Valorizar diferentes formas de aprendizagem
Estratégias multissensoriais e liberdade de expressão aumentam a participação e o sucesso.

6. Reforçar o sentimento de segurança
Elogios, rotinas previsíveis e escolhas simples ajudam a criança a sentir-se segura.

Conclusão

Crianças com dificuldades sensoriais não precisam de uma escola “especial” — precisam de uma escola que compreenda as suas necessidades. Com empatia, colaboração e pequenas adaptações, é possível transformar a experiência escolar em algo positivo, estimulante e seguro.