Por que dormir muda (mesmo) o humor, o comportamento e a capacidade de aprender. Já reparaste que, depois de uma noite mal dormida, tudo parece “maior”? Um pedido simples irrita, barulhos incomodam mais, a atenção foge, e a paciência fica curta. Isso não é falta de vontade — é o cérebro a trabalhar com menos recursos.

A autorregulação é a capacidade de gerir emoções, impulsos e energia: acalmar-se, esperar, focar, mudar de tarefa, recuperar após uma frustração. E o sono é um dos pilares mais fortes dessa capacidade.

1) O que é autorregulação, na prática

Autorregulação é a capacidade de ajustar o nível de alerta, as emoções e o comportamento para responder de forma adequada ao que está a acontecer — usando tanto sinais do corpo (sensações) como estratégias aprendidas (rotina, linguagem, atenção). Em crianças, isto está em desenvolvimento. Em adultos, varia conforme stress, rotina e… sono.

2) O sono é o “carregador” do cérebro

  • Quando o sono é curto, irregular ou de baixa qualidade, o cérebro tende a ficar:
  • Mais reativo emocionalmente (choro fácil, irritação, ansiedade).
  • Com pior controlo de impulsos (“faz antes de pensar”).
  • Com mais dificuldade de atenção e flexibilidade (trocar de tarefa, seguir instruções, tolerar erros).

Isto acontece porque dormir ajuda a “reorganizar” redes cerebrais envolvidas na emoção e na tomada de decisão. Quando falta sono, o cérebro fica mais no modo sobrevivência/reatividade do que no modo aprendizagem/autorregulação.

3) E o que a Integração Sensorial tem a ver com isso?

A Integração Sensorial de Ayres (ASI) ajuda-nos a entender como o sistema nervoso processa estímulos (som, luz, toque, movimento, posição do corpo) e como isso influencia o comportamento e a regulação.

Para adormecer, o corpo precisa fazer uma transição: sair do modo “alerta” e entrar num estado de segurança e desaceleração. Se a pessoa é muito sensível a estímulos (ou precisa de muito estímulo para se organizar), essa transição pode ser difícil.

Exemplos comuns antes de dormir:

  • A roupa “pica”, a etiqueta incomoda, o pijama “faz comichão”.
  • Qualquer som acorda (porta, passos, vizinhos).
  • Luz mínima já atrapalha.
  • Precisa mexer, rolar, levantar, falar, pedir mais uma coisa.
  • Parece “ter energia” justamente na hora de deitar.

Em populações com diferenças de processamento sensorial é frequente observar relação entre sensibilidades sensoriais e dificuldades de sono.

4) O ciclo que prende muita gente: sono e autorregulação alimentam-se

O sono influencia a autorregulação — e a autorregulação influencia o sono.

Dormir pior → autorregular pior no dia seguinte → mais stress/“crises” → mais dificuldade em desacelerar à noite → dormir pior.

Quebrar esse ciclo costuma exigir duas frentes:
Melhorar hábitos de sono (base)
Ajustar o ambiente e a rotina às necessidades sensoriais (personalização)

5) Sinais de que o sono pode estar a afetar o comportamento (em casa e na escola)
Em crianças e adolescentes:

  • Crises mais frequentes, especialmente no fim do dia.
  • Menos tolerância ao “não”.
  • Mais conflitos com colegas/irmãos.
  • Agitação sem fim ou apatia e “desligar”.
  • Dificuldade em seguir instruções e mudar de tarefa.

Muitas vezes, a pergunta-chave é: como foi a noite?

6) O que ajuda: estratégias simples e realistas

A) O básico do sono (que costuma ter impacto grande):

  • Horários consistentes de dormir/acordar (tanto quanto possível).
  • Rotina previsível e curta (20–40 min).
  • Reduzir ecrãs e luz forte perto da hora de dormir.
  • Quarto confortável: escuro, silencioso, temperatura adequada.

B) “Rotina de desaceleração” com olhar sensorial:

  • Escolhe 1–2 estratégias e testa por 2 semanas (consistência é o segredo).

Para quem parece “ligado à ficha”:

  • banho morno + luz baixa
  • história/voz calma
  • música suave
  • evitar brincadeiras com muita excitação

Para quem precisa “organizar o corpo”:

  • atividades de empurrar/puxar mais cedo à noite
  • massagem firme nas pernas/braços
  • “abraço de urso”/pressão profunda (se for confortável)

7) Dicas para educadores e professores

  • Olhar para o sono como hipótese real em dias difíceis.
  • Ajustar expectativas quando há cansaço visível.
  • Oferecer pausas regulatórias antes de exigir autocontrolo.
  • Comunicar com a família de forma não acusatória.

8) Quando se justifica procurar ajuda

  • Dificuldades persistentes de sono.
  • Despertares frequentes.
  • Demorar muito a adormecer.
  • Sensibilidades sensoriais marcantes.
  • Luta constante para ir dormir.

Melhorar o sono é criar condições para o cérebro autorregular-se. Quando o sono melhora, costuma melhorar também:

  • tolerância à frustração
  • atenção
  • humor
  • aprendizagem
  • convivência em casa e na escola